http://www.post-gazette.com/columnists/20030730sam0730p1.asp
quarta-feira, 30 de julho de 2003.
Seu vizinho é um cara quieto e ordeiro. Ele nunca toca música alta nem dá festas barulhentas e incômodas. Ele não fofoca sobre a cerca, apenas sorri educadamente e te oferece alguns tomates. Seu jardim é bem cuidado; a casa dele é extremamente limpa e você tem a impressão de que ele nunca tranca a porta da frente. Ele veste Dockers. Você dificilmente percebe que ele está em casa. E então, um dia, você descobre que ele tem uma horta, passa seus finais de semana em marchas pela paz e que o cara que você viu cuidando do jardim dele é o seu marido.
Permitam-me apresentar-lhes o Canadá. Os canadenses são tão quietos que você pode acabar esquecendo que eles estão lá, mas eles têm estado ocupados fazendo coisas surpreendentes. É como descobrir que aquele ratinho no sótão, do qual você se lembra vagamente, construiu uma máquina de café expresso.
Você percebeu, por exemplo, que nosso confiável irmão “maria-vai-com-as-outras” nunca se juntou à Coalizão de Boa Vontade? O Canadá não estava “a fim” de se juntar à “diversão” no Iraque, como acabou acontecendo. Eu só posso aceitar que os cardápios americanos não seriam contrariamente alterados para incluir “bacon grátis”, porque ninguém aqui come aquela coisa mesmo.
E aí tem essa situação selvagem da droga: os médicos canadenses são autorizados a prover maconha. O Parlamento está considerando uma lei que legalizaria a posse da maconha, como vocês devem ter ouvido, reduzindo a pena para a posse de menos de 15 gramas para uma multa, que nem uma multa por alta velocidade. Isto significa permitir às autoridades concentrar recursos nos traficantes; se seu jardim estiver cheio de besouros, é mais inteligente ir ao ninho do que tentar matar um por um. Ou, nos E.U.A., “bong”.
Agora, esta é a parte em que eu, como americana, não entendo. Estes pobres viadinhos imorais estão fazendo tudo errado. Eles têm um problema com as drogas: os crimes relacionados à maconha duplicaram de 1991 para cá. E o Canadá tem leis de controle de armas, o que significa que os criminosos devem todos estar fortemente armados, os civis que respeitam a lei indefesos e o governo prestes a lançar uma campanha de confiscação em massa (as leis foram promulgadas desde os anos 70, mas eu tenho certeza de que o governo irá confiscar a qualquer momento). Eles não tem sequer a pena de morte!
E mesmo assim ... nacionalmente, as taxas de criminalidade no Canadá vêm caindo desde 1991. Os crimes violentos caíram 13 % em 2002. É claro, ainda ocorrem crimes cometidos com armas - trazidas dos Estados Unidos, que se tornaram o maior fornecedor de armas ilegais da América do Norte - mas minha teoria é que o alto consumo deixou os criminosos muuuuito relaxados para cometer crimes violentos. Eles estão provavelmente mais interessados em furtarem caixas de “Ho-Hos” de lojas de conveniência.
E então vem o golpe de misericórdia. No mês passado, o Canadá decidiu permitir e reconhecer casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Pelo chifre do alce, o que eles estão pensando? Haverão casamentos entre policiais (eles sempre pegam seus homens!)? Dudley Do-Right era carinhoso com Nell, não Mel! Nós devemos ser os únicos que realmente se importam com as famílias. Não o bastante para assegurar-lhes saúde pública, é claro, mas nos importamos mais do que aqueles libertinos do norte.
Este tipo de comportamento é um perigo claro e presente para todos os nossos estereótipos em relação ao Canadá. Ele devia ser um país íntegro, frio, de jogadores de hóquei bebedores de cerveja, que não foi fundado por lutadores pela liberdade em uma revolução sangrenta, mas sorrateiramente formado por legalistas e monarquistas mais interessados na ordem e no bom governo do que na liberdade e na independência. Porém se nós somos os grandes individualistas, por que gastamos tanto do nosso tempo tentando fazer com que todos marchem em “lockstep”? E se os canadenses são tão reservados e moderados, por que eles são tão progressistas em relação a permitir que as pessoas façam o que elas querem?
Os canadenses são, como uma nação, menos religiosos do que nós, de acordo com pesquisas. O resultado disso é que o governo do Canadá não é tão influenciado por grandes e bem organizados grupos religiosos e assim, tem mais em comum com os governos escandinavos do que com os dos Estados Unidos, ou, diga-se, Irã.
O Canadá assinou o Protocolo de Quioto, permite que maiores de 19 anos consumam bebidas alcoólicas, tem a maior parte de sua população vivendo em áreas urbanas e aceita mais imigrantes per capita do que os Estados Unidos. Disseram-nos que estas coisas iriam destruir nossa sociedade. Mas eu acho que os canadenses são diferentes, porque a sociedade deles parece estranhamente boa.
Assim como adolescentes, nós idolatramos extremamente a liberdade individual, contudo, na verdade, buscamos ser todos iguais. Os canadenses, no entanto, parecem mais adultos - mais seguros. Eles não têm medo de estrangeiros. Eles não têm medo do homossexualismo. E, acima de tudo, eles não têm medo uns dos outros.
Eu me pergunto se os Estados Unidos um dia será tão legal.

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